31 maio 2006

PLENA PRIMAVERA

30 maio 2006

VERSOS A UM COVEIRO

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!
Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A génese de todos os abismos!
Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais:
Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números
A tua conta não acaba mais!

Augusto dos Anjos

CALCANTES V


Silenciosamente caminhamos para a eternidade

29 maio 2006

O QUE É A MORTE?


"A morte é passagem para a vida definitiva".

S. Paulo (2 Coríntios, 4, 16-18 e 5, 1-10)

28 maio 2006

NÃO ESTOU

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...

Álvaro de Campos

26 maio 2006

DES - CONFORTO

À conversa com o meu mordomo Sebastião, falamos dos seus problemas financeiros, e do seu primo Teodoro.

Resignado com a situação de Teodoro, não vislumbro nenhuma solução para a situação financeira do primo de Sebastião.

Habitualmente tenho um Stock de canas de pesca, e de quando em vez ganho paciência para dar umas lições de como pescar. Não é que a pescaria lá resulte o suficiente para sobreviver mas, vale a intenlição.

Sebastião serviu-me para pequeno-almoço, compota de Abacaxi com torradas de pão saloio, e um sumo de pêra, uma delícia.

De barriga cheia voltamos ao tema Teodoro e às notícias que fazem hoje manchete nas televisões.

O Sr. Presidente da nossa ainda república portuguesa está desconfortado com a pobreza nacional e vai iniciar um périplo para dar a conhecer o que toda a gente sabe inclusive o meu mordomo Sebastião, que Teodoro é pobre de alma, espírito e de nacionalidade, nasceu e não evoluiu nesta terra à beira mar plantada como milhares de concidadãos com falta de oportunidades. Será que esta visita ao mundo pobre é solução? Então Sr. Presidente da Republica quando o Sr. foi Primeiro-ministro deste pais o que fez ao dinheiro da comunidade? Distribuiu pelos menos favorecidos? Ou ajudou a fundar o grupo económico Falidos de Portugal, SA.

Por causa da sua visitinha tenho hoje o mordomo Sebastião em sobressalto, provavelmente terei de o despedir ao fim de muitos anos de bons préstimos, e terei de acompanhar o Exmo Sr. Presidente na sua visitinha a ver se consigo um mordomo novo que não se iluda com as suas benesses, graças a Deus.

Marquês de Sábado

25 maio 2006

FEIRA DO LIVRO


Estamos na semana das feiras do livro. A sua decadência é sintomática.
Provávelmente será necessário haver feiras populares do livro com o Emanuel, o José Cid, o Clemente, Sócrates o irmão de Séneca Carrilho, juntar-lhes Cherne grelhado, Sardinhas, Koiratos (o K é para lhes dar um ar de modernidade) e santos populares, e no final comprar Los bellos Durmientes de António Gala para ver se nos resta tempo de encenar uma peçazinha no Parque Mayer mesmo juntinho à estátua de Frank Gehry.

MÃOS FRIAS CORAÇÃO... ( II )


Sebastião Salgado

Será o tempo que gela ou a alma que arrefece?

24 maio 2006

A RAPARIGA COM MUITOS OLHOS

Um dia no jardim
fiquei muito espantado
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.


Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.

Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.

É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.

Tim Burton

20 maio 2006

MULHER II


Canciano - 1990


A OBESIDADE E "O GULA"

Todas as moedas que estacionavam na gaveta tinham um fim triste.
Chupas de caramelos, amendoins com açúcar, gelados caseiros de baunilha e outras iguarias faziam a tentação do Jonas.
Dia após dia o rapaz alargava e a gaveta da mercearia mingava. Pagavam as favas os empregados, porque o menino era insuspeito.

Com 10 anos de idade pesava quase 100 kg, era o animal do circo escolar.
Na sua passada titubeante, ouvia em uníssono a voz dos fantasmas brancos.
Lá vem o GULA.

19 maio 2006

AOS COELHOS


Auto-retrato

Fernando Pessoa está sentado no Majestic a escrever a ode marítima do Campos.
O Homem-Aranha, disfarçado de Peter Parker entra no café para mijar, dá de caras com o poeta. Lembra-se do penico que este lhe atirou e, maldoso, dá um encontrão à mesa do Fernando, fazendo o galão entornar-se sobre o manuscrito, inutilizando-o.
Como deixou cair os óculos ao tentar salvar o poema, o Fernando não reconhece o Homem-Aranha e chama-lhe cabrão.
enquanto Peter Parker mija e se ri, ou se ri e se mija, Pessoa vai escrever para casa.

Rui de Souza Coelho

16 maio 2006

O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivesse palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Edgar Allan Poe

15 maio 2006

PENSADOR

...Há assassinos que não se arrependem
há tantos pensadores que nunca aprendem
e há quem insista sempre aprender
mas não quer pensar...

Jorge Palma

12 maio 2006

PRINCESA


Cornell Medici - Princesa

Sublime voa a princesa encarnada
Sobre um campo de helianthus
Caudatus estende-se o véu
No horizonte onde o mar se encontra
Onde nem sempre é azul de felicidade
Onde nem sempre é vermelho de sangue

Sublime voa a princesa encarnada
Sobre um campo verde de esperança
Viva de seio coração útero
Laqueado de orgulhos perenes
Na beleza excelsa de Afrodite
Alta altiva altruísta atitude

Sublime voa a princesa encarnada
Sub o meu olhar estarrecido
De encantamento gigante
De trevas feitas primavera
De magia negra feita felicidade
Sublime voa a princesa encarnada

Matosantos




10 maio 2006

09 maio 2006

TOXICIDADE



... E chega a polícia bacteriológica
Com um toque de classe impõe a sua lógica
E parte-se ao meio a cidade
Metade será caos a outra eternidade

Tem-se a vertigem a cor do vácuo
Comunicar sem som sentir ruído branco
Esquecida que foi a origem
A arder num fogo fátuo à venda em Porto Franco

Toxicidade
ar do deserto
Asfixia devagar
Toxicidade num céu incerto
Chuva acre sem molhar
Vento morto a enterrar

Rui Reininho


03 maio 2006

AFRÓDICOS


O cão de guarda tinha mais de quatro anos de serviço. O seu consolo era a visita, em tempo destinado, de uma alma canina caridosa porque de resto a sua fiel companheira era uma corrente pesada, agrilhoada ao pescoço. Branco de bom porte, denunciava a sua função. Ladrar, ladrar até mais não.

Depois de uma noitada a testar o chassis num troço do Rally de Portugal a “Fina-flor da Chiba” foi reparar a viatura à oficina de assistência. Eram para ai??? Muitos. Assistentes, bebentes, dormentes e até afródicos.

Para consolo do cão um dos afródicos aproximou-se do animal, que feliz lhe saltou para a perna, pensando possivelmente que era para a espinha. Foram horas de puro e duro prazer. O afródico dava a perna, e ele delirava, a assistência já não queria saber da ferrugem do chassis. A cena hardcore empinava o olhar da assistência.

Algum tempo depois o cão cai inanimado. Estava morto, morto por prazer, morto por amor ao osso da perna.

A consternação foi geral.

Alguém dias mais tarde sugeriu:

- Quando partires a perna, diabo surdo e mudo, pede ao cirurgião ortopedista para te colocar um memorial de platina com os seguintes dizeres:

- Aqui morreu de prazer um apaixonado por este pedaço.


02 maio 2006

VAZIO

Se muita gente sentisse o que sinto
O céu estaria encerrado para obras
As almas do purgatório teriam fugido
E no inferno não haveria homens nem cobras
Os peixes morreriam de falta de ar
Os tubarões de sede
Para os barcos, não haveria mar

Se muita gente sentisse o que sinto
Os relógios andariam ao contrário
Empacotados num armário
Mil homens zupavam entre si
Na mingua de um amor
Não havia partos sem dor
As maternidades fechavam
Os amantes não amavam
Os sinos não dobravam

Se muita gente sentisse o que sinto
A flor não teria cor
O amor não teria flor
O sorriso não se abria
A criança não corria
A vida era vazia
Se muita gente sentisse o que sinto

Matosantos

01 maio 2006

1º DE MAIO


Foto de Sebastião Salgado
Plantação de cana de açucar
Sebastião Salgado fotografa faces de um mundo esquecido pela sociedade de consumo.