03 maio 2006

AFRÓDICOS


O cão de guarda tinha mais de quatro anos de serviço. O seu consolo era a visita, em tempo destinado, de uma alma canina caridosa porque de resto a sua fiel companheira era uma corrente pesada, agrilhoada ao pescoço. Branco de bom porte, denunciava a sua função. Ladrar, ladrar até mais não.

Depois de uma noitada a testar o chassis num troço do Rally de Portugal a “Fina-flor da Chiba” foi reparar a viatura à oficina de assistência. Eram para ai??? Muitos. Assistentes, bebentes, dormentes e até afródicos.

Para consolo do cão um dos afródicos aproximou-se do animal, que feliz lhe saltou para a perna, pensando possivelmente que era para a espinha. Foram horas de puro e duro prazer. O afródico dava a perna, e ele delirava, a assistência já não queria saber da ferrugem do chassis. A cena hardcore empinava o olhar da assistência.

Algum tempo depois o cão cai inanimado. Estava morto, morto por prazer, morto por amor ao osso da perna.

A consternação foi geral.

Alguém dias mais tarde sugeriu:

- Quando partires a perna, diabo surdo e mudo, pede ao cirurgião ortopedista para te colocar um memorial de platina com os seguintes dizeres:

- Aqui morreu de prazer um apaixonado por este pedaço.


02 maio 2006

VAZIO

Se muita gente sentisse o que sinto
O céu estaria encerrado para obras
As almas do purgatório teriam fugido
E no inferno não haveria homens nem cobras
Os peixes morreriam de falta de ar
Os tubarões de sede
Para os barcos, não haveria mar

Se muita gente sentisse o que sinto
Os relógios andariam ao contrário
Empacotados num armário
Mil homens zupavam entre si
Na mingua de um amor
Não havia partos sem dor
As maternidades fechavam
Os amantes não amavam
Os sinos não dobravam

Se muita gente sentisse o que sinto
A flor não teria cor
O amor não teria flor
O sorriso não se abria
A criança não corria
A vida era vazia
Se muita gente sentisse o que sinto

Matosantos

01 maio 2006

1º DE MAIO


Foto de Sebastião Salgado
Plantação de cana de açucar
Sebastião Salgado fotografa faces de um mundo esquecido pela sociedade de consumo.