O clássico sapato vermelho entre carris foi o mote para a minha libertação. Não houve Alfa nem Intercidades e tão pouco qualquer comboio de mercadorias daqueles bem pesados que levam cimento. A ideia de negociar o amor foi repentina. E se abrisse uma agência de qualquer coisa que envolvesse o amor?
Sei lá casamentos, porra mas isso já existe.
Divórcios, mas essa merda é para advogados.
Sei lá qualquer coisa antes que venha esse monstro, que agora já não desejo a morte.
Acorda Sofia acorda tu estás louca. O monólogo funciona como terapia à resistência. Sim uma agência pois uma agência onde eu própria possa ser a proprietária, a empregada e a primeira cliente. Eu sinto-me bem com Sebastião é um tipo fixe, por vezes um pouco tresloucado. Recordo-me quando sem mais nem quê partiu o copo de Whisky e se pôs a chorar por tê-lo partido, aqueles acessos de infantilidade à Sebastiãozinho.
Continuando a sonhar alto, a agência devia ser o espelho da minha necessidade, da minha ascensão profissional, da minha vontade de ser um pássaro livre, que tanto podia fazer um voo bem alto como voo picado sobre qualquer alvo, em que não existisse nenhuma gaiola onde pudesse estar enclausurada, onde quando me apetecesse abrisse a porta e saísse, ou assim tipo contrato de aluguer. Casávamo-nos, ou melhor íamos ao cartório e assinávamos um contrato onde ficaria explicita a duração do contrato tipo x meses. Boa é isso mesmo, uma agência de leasing matrimonial, boa, leasing matrimonial, e já tenho nome – SOFILEASING. Vai ser de fazer pirraça às minhas amigas, as televisões vão cair em cima de mim, uahu, vou ter publicidade gratuita.
Entre Sofia Albuquerque Alves Borges, Sebastião Gomes Claro Cardoso e SOFILEASING é estabelecido um contracto usufrutuário de comunhão de bens por tempo determinado e com o prazo de 48 meses a contar desta data… e eu já sonho alto com a minha liberdade, vendo as neuroses de Sebastião por um canudo, ele a tomar conta dos nossos futuros filhos, eu quero ter muitos filhos e o Sebastiãozinho um excelente papá.
Será que em 48 meses consigo ter mais de 3 filhos?
O chá está na mesa, cruzo as pernas e, de soslaio pisco-lhe o olho.
Olha saiu-me.
O tipo levantasse e dirige-se a mim porte altivo, seguro de si, comecei a tremer, será o príncipe encantado?
E diz-me:
- Permita que me sente a seu lado?
Um longo arrepio correu-me pela espinal medula abaixo tocando longamente na minha intimidade. Num gesto forte bem estruturado puxou a cadeira e sentou-se. Trémula de paixão quase sem voz perguntei-lhe se tomava um chá, o qual anui.
- Sabe é muito linda, e parece-me apaixonada.
- Sim, sim foi amor à primeira vista. Disse eu meio aparvalhada.
- Pois eu entendo-a, o Sebastião gosta muito de si, e pediu-me para lhe entregar esta carta, chamo-me Ricardo Abreu, ou melhor Tenente Abreu.
…
01 outubro 2007
22 setembro 2007
100 título ele I
Desço abruptamente a calçada, nas mãos ainda levo trémulo o sentimento de dor.
São quatro horas não sei se da manhã ou da tarde pouca diferença faz. Os olhos arregalados já não permitem destrinçar o lado colorido da roupa que visto.
E a Seychelles aqui tão perto de um tsunami convulsivo.
Sabia que estas coisas não aconteciam só aos outros, tinha a prefeita noção que os sentimentos são como as rotundas, com entradas e saídas.
Como é que se pode ser tão horrível, tão diabólico. Prometo tentar nunca mais partir um copo de whisky.
Levanto-me na penumbra do meu olhar, as fadas negras pululam no meu imaginário, e uma acerca-se em câmara lenta, 135mm e beija-me a testa sussurrando-me candidamente:
- Sebastião, nunca te esqueças que um poema sem nexo é como uma cama sem sexo.
E eu que tinha acabado de me levantar, ainda mal conseguia acertar com o dedo no chinelo, quando a minha consciência bate no fundo e a pancada é tão grande que me fez recuperar a memória dos momentos anteriores.
Faço o gesto típico de sacudir a cabeça com violência rrrrrrrrhuuuum, violento como quem toma um cimbalino duplo sem açúcar, afinal o gelo ainda estava inteiro, ainda havia a oportunidade de voltar a saborear um copo de whisky e pensar que a minha cama ainda é capaz de ranger de prazer. Na verdade existem camas que têm vida, assim como copos de qualquer coisa. Enfim esta capacidade humana de amar a carne e o fóssil.
Por volta das 7 horas não sei se da manhã ou da tarde encontro-me homem vestido de negro. A fatiota está a rigor para a festa mais colorida do ano a minha Renault 4l está perfeitamente linda, a música que sai roufenha do auto rádio parece-me in delével a Dark Side of the… e não consigo recordar-me do nome do grupo.
E logo agora que estou pronto para a grande farra, vem-me esta coisa negra encher o carro e obrigar-me a escrever à Sofia, recordando-a que gosto da minha 4L e que ainda estou louco de amor por ela. Há objectos e abjectos que nos fazem mover.
- Sebastião, Sebastião, acorda tens de estar no quartel às 8 horas e ainda se ouvem as granadas a explodir no quintal e nós precisamos da tua ajuda, meu querido filho.
O ar sôfrego da mãe num misto de protectora e protegida faz com que Sebastião vista o seu camuflado urbano e parta urgentemente para a sua guerra civil.
No braço esquerdo reluz uma tatuagem Angola 1972 – Amor de Mãe.…///…
São quatro horas não sei se da manhã ou da tarde pouca diferença faz. Os olhos arregalados já não permitem destrinçar o lado colorido da roupa que visto.
E a Seychelles aqui tão perto de um tsunami convulsivo.
Sabia que estas coisas não aconteciam só aos outros, tinha a prefeita noção que os sentimentos são como as rotundas, com entradas e saídas.
Como é que se pode ser tão horrível, tão diabólico. Prometo tentar nunca mais partir um copo de whisky.
Levanto-me na penumbra do meu olhar, as fadas negras pululam no meu imaginário, e uma acerca-se em câmara lenta, 135mm e beija-me a testa sussurrando-me candidamente:
- Sebastião, nunca te esqueças que um poema sem nexo é como uma cama sem sexo.
E eu que tinha acabado de me levantar, ainda mal conseguia acertar com o dedo no chinelo, quando a minha consciência bate no fundo e a pancada é tão grande que me fez recuperar a memória dos momentos anteriores.
Faço o gesto típico de sacudir a cabeça com violência rrrrrrrrhuuuum, violento como quem toma um cimbalino duplo sem açúcar, afinal o gelo ainda estava inteiro, ainda havia a oportunidade de voltar a saborear um copo de whisky e pensar que a minha cama ainda é capaz de ranger de prazer. Na verdade existem camas que têm vida, assim como copos de qualquer coisa. Enfim esta capacidade humana de amar a carne e o fóssil.
Por volta das 7 horas não sei se da manhã ou da tarde encontro-me homem vestido de negro. A fatiota está a rigor para a festa mais colorida do ano a minha Renault 4l está perfeitamente linda, a música que sai roufenha do auto rádio parece-me in delével a Dark Side of the… e não consigo recordar-me do nome do grupo.
E logo agora que estou pronto para a grande farra, vem-me esta coisa negra encher o carro e obrigar-me a escrever à Sofia, recordando-a que gosto da minha 4L e que ainda estou louco de amor por ela. Há objectos e abjectos que nos fazem mover.
- Sebastião, Sebastião, acorda tens de estar no quartel às 8 horas e ainda se ouvem as granadas a explodir no quintal e nós precisamos da tua ajuda, meu querido filho.
O ar sôfrego da mãe num misto de protectora e protegida faz com que Sebastião vista o seu camuflado urbano e parta urgentemente para a sua guerra civil.
No braço esquerdo reluz uma tatuagem Angola 1972 – Amor de Mãe.…///…
21 setembro 2007
estações
No decorrer da Primavera sai na estação errada, mas caminhando encontra-se quase sempre uma nova estação.
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